segunda-feira, fevereiro 05, 2007

 

Algumas questões envolvendo a Psicologia da Gestal (elaboradas pelo Prof. Dr. José Antônio Damásio Abib).
As respostas foram dadas por mim e por Eduardo Martins (meu grande parceiro de trabalhos durante a graduação em Psicologia na UFSCAR)






1) Recorra aos conceitos de estímulo local e entorno e defina os termos todo e unidade.
Estímulo local pode ser definido como o estímulo "particularizado", ou seja, retirado de seu contexto e se assemelharia ao termo unidade; a unidade corresponde ao estímulo local na medida em que sua estimulação independe das unidades circundantes. Estímulo entorno é o estímulo que contorna o estímulo local e, segundo os introspeccionistas, contamina a experiência sensorial pura. Para os psicólogos da Gestalt, esta distinção é falsa, pois a experiência sensorial depende tanto do estímulo local quanto do entorno, o que constitui o todo.

2) Diga se na lei de organização perceptual figura-fundo o todo (ou a unidade) corresponde à figura ou ao fundo.
A unidade corresponde à figura que se destaca em relação ao fundo menos definido.

3) Defina o conceito de campo visual recorrendo à lei figura-fundo.
O campo visual apreende unidades circunscritas que são da mesma classe e desta maneira se destaca do ambiente que está inserido. Cada unidade circunscrita corresponde a uma figura e o meio em que está inserido corresponde ao fundo.

4) Defina o termo Gestalt.
O termo refere-se ao à ordenação inerente aos dados sensoriais, ou ainda, ao modo como estímulos específicos são percebido levando-se em conta a organização dos objetos que os rodeiam; precisamente, Gestalt significa forma, estrutura ou configuração e constituem os verdadeiros "elementos mentais".

5) Arrole as leis da organização perceptual, diga qual considera a mais importante e justifique.
As leis da organização sensorial são: relação figura-fundo, fechamento (lei da pregnância), semelhança, proximidade, formas fechadas e "bom" contorno. A lei de organização sensorial mais importante é a lei da pregnância porque todas as outras leis atuam de maneira a facilitar a boa forma. A lei de figura-fundo é produto de todas as leis, bem como da lei da pregnância.

6) O que significa a expressão determinismo estrutural.
A percepção de uma parte da totalidade é determinada pela pregnância desta totalidade, ou seja, não podemos explicar mecanicamente a reação a um estímulo, e sim à dependência da estrutura em que este estímulo se encontra.

7) Dê um exemplo de organização e outro de agregado e explique porque o todo é diferente da soma de suas partes.
Uma escala musical pode ser um exemplo de organização, onde ao se retirar uma nota, toda a harmonia fica comprometida. Por outro lado, um caderno em branco em que se retira uma folha, não afeta as outras do caderno, sendo assim um exemplo de agregado.
O todo é diferente da soma de suas partes porque a relação entre estas e o todo é dinâmica; se uma parte for alterada, toda a estrutura se dissolverá.

8) Apresente os dois sentidos do conceito de análise segundo a psicologia da Gestalt.
Um sentido de análise é aquela que segrega a unidade/gestalt do fundo, outro sentido refere-se à reversibilidade intencional ou expontânea de campos sensoriais.

9) Diferencie 'unidade molecular de análise' de 'unidade molar de análise' e exemplifique.
Unidade molecular refere-se a uma unidade de análise que é uma sensação local, ou o que Kohler chamou de partes não genuínas do campo sensorial; molecularismo é conhecido em psicologia como elementarismo, que seria comum ao introspeccionismo e ao behaviorismo clássico. Unidade molar de análise corresponde a análise de uma gestalt, ou o que Kohler chamou de parte genuína de um campo sensorial: a figura.
Um exemplo pode ser a observação de determinado comportamento sem levar em conta as motivações que contribuíram para sua ocorrência; podemos ver uma pessoa agredindo outra e julgar sua crueldade aparente, quando não sabemos o que levou a isto. Isto seria uma unidade molecular de análise, na análise molar o contexto deve ser incluído para se inferir uma possível causalidade.

10) Distinga “erro de estímulo” de “erro de experiência” e exemplifique.
Erro de estímulo é o perigo de confundirmos nosso conhecimento acerca das condições físicas da experiência sensorial com essa experiência em si mesma. Um exemplo dado pelos introspeccionistas ocorre quando atribuímos o mesmo tamanho a um objeto dado a nós em diferentes distâncias; a constância perceptual causada pelos estímulos entorno determinaria o erro de estímulo.
Erro de experiência ocorre quando certas características da experiência sensorial são inadvertidamente atribuídas ao mosaico dos estímulos. No exemplo anterior, o erro de experiência seria atribuir ao objeto as características percebidas que são organizadas segundo nosso sistema nervoso.

11) Descreva o Phi Fenômeno e comente sua importância para os conceitos de mundo fenomenal, descrição fenomenológica e investigação qualitativa em psicologia.
Phi Fenômeno é o fenômeno percebido que não correspondente físico; o Phi ilustra o que significam as Gestalten perceptuais. A importância deste conceito é situar as Gestalten como fenômeno não correspondente aos fatos físicos e sim como configurações coerentes, que possuem sentido e não podem ser facilmente desmembradas em sensações e imagens elementares. O conceito Phi Fenômeno permitiu que a descrição fenomenológica se desprendesse da análise objetiva dos processos perceptivos e situa-os no nível subjetivo. O mundo fenomenal, desta maneira, não é mais encarado como um dado "em si", e sim como um resultado de processos perceptivos. Diante do Phi Fenômeno, tornou-se equivocada a investigação psicológica qualitativa apoiada na relação direta entre fatos observáveis e inferências causais internas; os fatos observáveis tratados como unidades elementares precisarão ser descartados como forma de análise psicológica devendo ser considerados a relação destes com a organização psicológica estrutural.

12) Questão para debate
Segundo Köhler, a organização sensorial seria uma condição intrínseca do ser humano, sendo a priori em relação à experiência; porém, Köhler não deixa de enfatizar que essa organização depende da disposição física dos objetos na natureza. Sendo a organização sensorial uma característica do ser humano e não equivalente ao mundo físico, a consciência desta organização não seria uma forma de entrar em contato com o mundo "em si"?

 



O Corpo, a Persona e a Imagem Corporal do homem contemporâneo

“Só aquilo que somos tem o poder de curar-nos” (C.G. Jung)

O Contexto Cultural e suas consequências imediatas:

A Revolução Industrial é a conjuntura histórica que assinala a profunda modificação da relação do homem com seu próprio corpo. O progresso tecnológico e a expansão do capitalismo exigiram uma disciplina corporal e uma repressão da espontaneidade corporal, uma vez que o homem tornou-se a própria ferramenta de produção. Além disso, o homem começou a trabalhar cada vez mais, sacrificando seu corpo na busca de um conforto dado pela aquisição de bens de consumo. Trata-se de um paradoxo: para que o nosso corpo viva de um modo confortável e prazeroso é preciso maltratá-lo.
“Viver bem” passou a significar a “deglutição” de mercadorias e do padrão estético/comportamental impostos pela sociedade dominante e pelo mercado. Conseqüentemente, o ser humano-desejante reduziu-se a um mero consumidor do mercado, coisificando não só a relação com seu corpo, como também com o mundo à sua volta.
A coisificação do corpo é claramente observada no âmbito da sexualidade. O corpo é tratado como objeto de desejo para outros: todos os sonhos, desejos e histórias pessoais, as relações pessoais e sociais e outros aspectos da vida humana que se tornam concretos no corpo da pessoa e fazem dela um ser único no mundo desaparecem e só sobra um corpo a ser consumido na fantasia de alguém. Torna-se inconcebível a relação sujeito-sujeito.
O valor do corpo na cultura capitalista é dado pela sua eficiência como peça na produção ou como consumidor ou objeto do desejo sexual, impossibilitando o sujeito de constituir-se como tal e de relacionar-se com o outro subjetivamente.

A cultura e a psicologia

Podemos constatar que o indivíduo do século XX vive num estado de insatisfação crescente com sua imagem corporal. O corpo que vê não corresponde àquela imagem cultuada nos meios de comunicação_ a única que pode ser desejada e consumida. Ao se deparar com o espelho, o indivíduo vê uma imagem distorcida, não reconhece o próprio corpo.
Paralelo a isso observamos outro conflito: do indivíduo com sua persona. Segundo C.G.Jung, a persona é a máscara ou fachada aparente do indivíduo exibida de maneira a facilitar a comunicação com o seu mundo externo, com a sociedade onde vive e de acordo com os papéis dele exigidos. É o arquétipo de conformidade que protege ego dos conteúdos inaceitáveis à consciência e o adapta à sociedade. E como todo componente psíquico a persona tem sua face negativa: há o perigo do indivíduo identificar-se com o papel por ele desempenhado fazendo distanciando-se de sua própria natureza.
Dada esta breve conceitualização do arquétipo persona, é possível inferir que o indivíduo do século XX está imerso numa relação caótica com a própria persona constituída como mecanismo adaptativo da psique. A “máscara” que adotamos não acompanha o dinamismo das mudanças impostas pela tecnologia e pelos meios de comunicação. A roupa que vestimos, o modo de nos expressarmos (ambos reflexos da persona) devem estar em constante transformação de acordo com a moda e a ideologia vigente. Há uma incompatibilidade entre as demandas de sobrevivência: o padrão estético imposto pelos meios de comunicação nem sempre corresponde àquele exigido pelo mercado de trabalho, como também pode estar em desacordo com as condições ambientais e históricas no qual se insere o indivíduo. O que vem ocorrendo na época atual se traduz por uma despersonalização constante do indivíduo. O ser humano vem sendo obrigado a trocar de máscaras na mesma rapidez que aparece um produto novo no mercado. Não conseguindo pelo menos se identificar com um papel específico na sociedade, a integração do ego com seu self torna-se uma tarefa dificílima: se o indivíduo não define o seu lugar, o seu estilo, o seu modo de se relacionar com os outros, como então poderá ter consciência daquilo que reprimiu, de sua sombra? Penso que se Jung estivesse vivo, assustar-se-ia com a quase impossibilidade daquilo que ele descreveu como objetivo central de toda personalidade _ o processo de individuação, uma vez que o confronto do ego com sua sombra é um dos primeiros aspectos deste processo.
E qual a relação dessa desordem psíquica com o corpo e com a imagem corporal?
Essa indagação nos remete à polêmica questão da relação mente e corpo.
Jung, tendo como base dados empíricos, propôs uma nova abordagem sobre esta questão. Segundo Jung, os processos do corpo e da mente se desenrolam simultaneamente, de uma forma inexplicável. A nossa forma de pensar não nos permite conceber corpo e psique como sendo uma única coisa. Jung afirma: “penso que existe um princípio particular de sincronicidade ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração.” (Jung, 1989). Dessa forma, não podemos conceber uma causalidade, ou seja, não podemos afirmar que alterações psicológicas causam alterações psíquicas como não podemos afirmar que alterações psíquicas causam perturbações fisiológicas. Como enfatizou Jung, a experiência empírica só nos permite afirmar que ambos processos ocorrem simultaneamente.
Embora não utilizasse técnicas corporais, Jung fez uso da música e da pintura como técnicas terapêuticas. Adotando a postura de Jung do homem como um todo indivisível, cujo corpo e psiquismo são apenas diferentes formas de expressão desta mesma unidade sincrônica, Petho Sándor acrescentou à análise junguiana tradicional o trabalho corporal.
Segundo a perspectiva de Sándor o trabalho corporal busca em reintegrar o paciente consigo mesmo, reconectando o homem com sua natureza mais imediata , o corpo físico, origem do eu corporal.
Com uma concepção de certa forma compatível à de Sándor e tendo como referência Williem Reich, para Alexander Lowen o estudo do homem é unitário: “não é a mente que fica zangada como não é o corpo que agride. É o indivíduo que se expressa a si próprio”(Lowen, 1977). Segundo Lowen o afeto reprimido é expresso fisicamente e sua técnica corporal tem como objetivo a diluição das couraças musculares e de caráter e a consequente liberaçào da energia reprimida (Lowen, 1977)
Tendo em vista tais abordagens, podemos concordar com a afirmativa de Jung de que nossa inteligência não nos permite admitir corpo e psique como um processo único que é o homem. No entanto, a constatação de que alterações psíquicas refletem em alterações corporais e concomitantemente alterações corporais vêm acompanhadas de alteraçoes psíquicas nos permite teorizar e trabalhar terapeuticamente a fim de possibilitar a totalidade do ser humano.
Retomando a problemática proposta, vemos que o homem do século XX está perdido quanto à sua persona. O arquétipo da persona, diante do contexto cultural que nos inserimos, não está podendo exercer sua função adaptativa. O corpo, representante sincronístico da persona está desamparado. A pessoa se preocupa em “cuidar” do corpo, mas este cuidado não significa uma consciência do corpo. O corpo deve estar pronto para o outro, e assim como a persona, submetido à desenfreada mutação da indústria cultural. E para agravar, o homem comtemporâneo pensa de forma cartesiana: concebe o corpo como suporte da mente, sendo a mente valorizada como o lugar da razão e o corpo relegado a segundo plano. Quanto à imagem corporal, por não ter consciência de seu corpo, o homem só pode conceber um “retrato mental” distorcido de si mesmo. Assim, a pessoa vive um conflito incessante entre a imagem ideal e a realidade, gerando simultaneamente um distanciamento crescente da consciência corporal e um adoecimento psíquico.
Da mesma forma que não podemos conceber uma causalidade na relação mente -corpo, não podemos traçar um sentido único para a dinâmica descrita acima. A relação entre persona, corpo e retrato corporal está mais caracterizada como uma relação sistêmica, onde cada aspecto é influenciado pelo outro, em todas as direções e em todos os sentidos, tendo como resultante o indivíduo integral.
Diante desta breve exposição, e tendo como respaldo concepção holística do ser humano fornecida pelos autores citados acima, seria imprudente negar a necessidade de incluir o corpo no contexto do atendimento psicoterápico. Não basta sabermos que corpo e mente fazem parte de uma mesma unidade. É nosso dever promover e buscar essa integração, para nós mesmos e para os outros. O corpo é parte inalienável do processo de individuação, que segundo a psicologia analítica é o destino de todo ser humano, tendo ele consciência ou não.

Referências Bibliográficas:
Jung, C. G., Fundamentos de Psicologia Analítica, Ed. Vozes, 5a. Edição, Petrópolis,
1989.
Lowen, A. O corpo em terapia: a abordagem bioenergética, Sào Paulo, Summus, 1977

artigo on-line: “Corpo Capitalismo e Cristianismo”, Jung Mo Sung

This page is powered by Blogger. Isn't yours?