sábado, julho 30, 2005

Sexualdade e Família
Ainda hoje, é constrangedor falar sobre sexo e principalmente sobre a própria sexualidade. As crianças e adolescentes demonstram esse mal estar de forma espontânea, através de risos ruborizados e gozações. Já muitos adultos evitam o assunto com seus filhos, e nas suas relações amorosas preferem deixá-lo “nas entrelinhas”, sem verbalizar seus desejos, anseios e medos ao parceiro. Geralmente, essas pessoas não permitem a si refletir sobre sua intimidade sexual, o que impossibilita a priori, a educação sexual dos filhos e uma relação sexual-amorosa saudável.
Concomitantemente com esse tabu sexual, observa-se uma conjuntura social e ideológica a princípio contraditória. Vivemos num país internacionalmente conhecido pela sensualidade e sexualidade liberal de seu povo - imagem construída principalmente através do carnaval dos produtos da mídia (novelas, filmes, programas) comercializados no mercado exterior, e do turismo sexual. E atravessamos globalmente uma época onde o desempenho sexual é hipervalorizado, onde o orgasmo é preocupação prévia – reflexos da chamada era da “ditadura do gozo”, onde o indivíduo adoece por não conseguir o que foi normatizado como felicidade. A partir daí constata-se que a liberação sexual ocorrida a partir de 1960, não foi totalmente eficiente para o fim da repressão sexual, pois a sociedade tornou o prazer sexual um imperativo, esquecendo-se, porém de oferecer uma educação sexual que possibilite ao indivíduo uma sexualidade satisfatória.
Ao falar de repressão sexual podemos nos remeter á obra de Sigmund Freud. É difícil compreender que após cem anos da publicação dos Três Ensaios de Teoria Sexual (1900), o sexo é ainda concebido, por inúmeras pessoas, apenas como meio de reprodução. Nessa obra, através de uma detalhada explanação, relacionando a sexualidade infantil com as formas perversas de sexualidade, Freud constata que durante o desenvolvimento do indivíduo, a sexualidade se manifesta através de diversas metas e objetivos e se volta ao coito (caso o desenvolvimento psicosexual seja “normal”) somente após a puberdade, e só aí a função reprodutora do ato sexual poderá emergir.
A visão do sexo como forma de reprodução foi historicamente instaurada pela moral religiosa que repudia os prazeres da carne, já que estes desviam a alma de Deus. Justamente por produzir prazeres dissociados da reprodução a atividade sexual foi regrada. Sexo só seria um ato de amor se resultasse em reprodução, se a sua função fosse outra deveria ser considerado luxúria e, portanto deveria ser evitado (Guimarães, 1992). Marilena Chauí, na sua obra Repressão Sexual, essa nossa (des) conhecida (1988), na mesma perspectiva diz que o amor primeiramente foi fragmentado em espiritual e carnal, onde o segundo desviava os objetos puros do primeiro, para depois se estabelecer uma relação de hierarquia, onde o espiritual era o mais perfeito e finalmente estabeleceu-se uma relação onde o amor carnal é uma expressão do espiritual. Num país como nosso, majoritariamente cristão, o sexo ainda é visto pelos mais radicais como expressão de um amor espiritual, abençoado somente para fins reprodutivos.
Panoramicamente observa-se uma transição de uma sociedade reprimida sexualmente pela moral religiosa para uma sociedade sexualmente liberal (embora não suficientemente educada para lidar com isso).
Muitos pais se enquadram na primeira categoria e diante de tantas mudanças estão perplexos e não sabem a melhor forma de dar uma educação sexual a seus filhos:
“Antigamente os pais não tinham muitos problemas em saber o que era certo ou errado. O que deviam permitir ou condenar. Os valores eram absolutos. Hoje, é difícil haver um consenso sobre um sistema de valores sexuais. Nem numa mesma família há igualdade de posições com relação a qualquer tema sexual” (Suplicy, 1983).
A atitude dos pais frente á sexualidade tem uma grande influência para a criança na construção de sua própria sexualidade. Perguntas respondidas ou ignoradas, atos de carinho ou rejeição dos pais entre si ou para com os filhos, são elementos com que uma criança conta para elaborar sua vida sexual. (Suplicy, 1999).
“Uma família que não demonstra afeto, que não se toca, que não dá atenção ás inquietações da criança, que reage agressivamente a toda cena sensual que apareça na TV, está ensinando que sexo é feio, sujo e proibido. Já uma família que trate a sexualidade de forma mais positiva, transmitirá esses valores aos filhos. A partir daquilo que a família provê, de sua carga genética e da sociedade na qual convive, a pessoa vai fazendo suas experiências e escolhas.” (Suplicy, 1999)
Somando-se ao contato cotidiano da criança com os pais, o processo de socialização que se segue, a influência da mídia e dos grupos social tem o processo de educação sexual (processo de vida que permite ao indivíduo se modificar, se reciclar ou não, terminando somente com a morte) (Suplicy, 1999)
No entanto, a educação sexual deve ser maximizada através da Orientação Sexual. A Orientação Sexual consiste num processo sistemático com a finalidade de preencher lacunas de informação, abolir tabus e preconceitos e discutir sobre os aspectos emocionais e os valores que impedem a aquisição de conhecimentos; além de proporcionar uma visão ampla e aprofundada sobre a sexualidade (Suplicy, 1999).
O trabalho de Orientação Sexual pode ocorrer em diversos ambientes: centros de saúde, comunidades, clubes, igrejas, meios de comunicação e principalmente na escola. O ambiente de respeito e o vínculo entre professores e alunos favorecem a intervenção pedagógica proposta pelo processo de Orientação Sexual .
Em 1998, o Ministério da Educação e do Desporto, como parte da nova política educacional, documentou os Parâmetros Curriculares Nacionais, propondo uma mudança curricular no ensino fundamental. Segundo o Ministro da Educação, Paulo Renato de Souza (1998), tais parâmetros visam direcionar o ensino brasileiro para a formação de cidadãos que estejam preparados para o mercado competitivo e para os progressos científicos e tecnológicos, que caracterizam a atualidade.
Tendo em vista o compromisso com a construção da cidadania, a mudança curricular enfatiza uma prática educacional voltada para a compreensão da realidade social, dos direitos e das responsabilidades (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998). Dessa forma, ao currículo tradicional foram acrescentados os Temas Transversais (Ética Pluralidade Cultural, Meio Ambiente, Saúde, Orientação Sexual, Trabalho e Consumo). Os conteúdos dos temas transversais devem ser incorporados nas áreas já existentes e no trabalho educativo da escola. A transversalidade consiste na forma de organizar o trabalho didático (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998), ou seja:
“A transversalidade diz respeito á possibilidade de se estabelecer, na prática educativa, uma relação entre aprender conhecimentos teoricamente sistematizados (aprender sobre realidade) e as questões da vida real e de sua transformação (aprender na realidade e da realidade). E a uma forma de sistematizar esse trabalho e incluí-lo explícita e estruturalmente na organização curricular, garantindo a sua continuidade e aprofundamento ao longo da escolaridade.”
(Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998).
Sendo um dos Temas Transversais, a Orientação Sexual adquire um respaldo significativo no que diz respeito á sua aceitação e implementação pelos educadores e se justifica especificamente por inúmeros fatores:
Ao não tratar da sexualidade a escola estará reforçando a expectativa de que o assunto é um tabu, um tema vergonhoso, e que o seu conhecimento não é sério e deve ser adquiridos através dos colegas, revistas, filmes pornográficos ou em zonas de prostituição (Suplicy, 1999). E mesmo a escola se omitindo, acontecerá alguma forma de educação sexual, provavelmente repressiva, alienada e distorcida
Acreditava-se que os pais viam com receio com o fato do tema sexualidade ser tratado como algo natural e bonito na escola. Porém, uma pesquisa do Instituto Data Folha, realizada em 1993, em dez capitais brasileiras, constatou que 86% das pessoas ouvidas apoiavam a inclusão da Orientação Sexual no currículo escolar (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998); além disso, pesquisas apontam uma tendência do adiamento da prática sexual em jovens que freqüentaram um programa de orientação sexual (Suplicy, 1999).
A Orientação Sexual na escola sendo fornecida em grupo promove á criança/ adolescente uma identificação com os colegas, uma desmistificação da sexualidade adulta (o professor é tido como modelo), além de proporcionar ao aluno o aprendizado de que opiniões variadas merecem ser discutidas e avaliadas respeitosamente. Além do mais, “as curiosidades das crianças sobre a respeito da sexualidade são muito significativas para a subjetividade, na medida em que se relacionam com o conhecimento da origem de cada um e com o desejo de saber. A satisfação dessas curiosidades, contribui para que o desejo de saber seja impulsionado ao longo da vida, enquanto a não satisfação gera tensão, ansiedade e, eventualmente, inibição da capacidade investigativa. A oferta, por parte da escola, de um espaço onde as crianças possam esclarecer suas dúvidas e continuar formulando novas questões, contribui para um alívio das ansiedades que muitas vezes interferem no aprendizado dos conteúdos escolares.” (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998)
O trabalho de Orientação Sexual na escola possibilita a realização de ações preventivas de doenças sexualmente transmissíveis/AIDS de forma mais eficaz. Campanhas de conteúdos apenas informativos tem se mostrados insuficientes para a adoção de um comportamento preventivo. As ações educativas mais eficazes para a prevenção da AIDS são aquelas que apresentam continuidade, que oferecem oportunidades de elaboração das informações recebidas e conscientização dos fatores (sociais, emocionais e culturais) que impedem a adoção de uma conduta adequada (preventiva).
A Orientação Sexual na escola contribuí para a prevenção da gravidez e do abuso sexual. A discussão e conhecimento sobre os métodos contraceptivos e sua disponibilidade bem como a reflexão sobre a própria sexualidade, amplia a noção de como a gravidez pode ser evitada. A prevenção de abuso sexual é favorecido na medida em que se promove a consciência que seu corpo lhes pertence e só pode ser tocado por outro com seu consentimento ou por razões de saúde ou higiene. (Parâmetros Curriculares Nacionais, 1998).
Promovendo discussões sobre questões polêmicas como aborto, disfunções sexuais, homossexualidade, prostituição e pornografia, sob uma perspectiva democrática e pluralista, a Orientação Sexual na escola contribuí para o bem estar da criança/adolescente na vivência de sua sexualidade presente e futura.
. A escola não pode escapar de sua função de transmitir um conhecimento que aborde o sexo como fonte de prazer e realização do ser humano, e que aumente a consciência das responsabilidades do indivíduo em formação. A orientação sexual na escola fornece subsídios para a construção de um conhecimento educacional sistêmico.
Guimarães (1992), em sua dais“O Descaso em relação à Educação Sexual na Escola” apresentou dados preocupantes no que diz respeito ao conhecimento sobre sexualidade de alunas que cursavam o magistério.. A principal fonte de informação dessas futuras professoras são livros e enciclopédias e revistas como “Carícia”, “Capricho” e “Nova”. Em casa conversam pouco sobre sexo, porém demonstram uma necessidade de diálogo. O assunto é tabu tanto em casa como na escola, e esta, não ensina a ler criticamente. Sobre a Orientação Sexual infantil consideram capazes de contribuir caso isso seja permitido pela a escola e pelos pais, e caso estes sejam maduros o suficiente. Porém 50% destas discordam da existência de uma sexualidade infantil, sentindo-se desobrigadas a obter qualquer conhecimento sobre o que fazer (supondo que as crianças jamais lhes exigirão alguma atenção quanto á sexualidade). Dizem que os professores devem responder se questionados, mas preferem evitar que as crianças perguntem sobre isso. Contraditoriamente acham as manifestações sexuais infantis (brincar de médico e espiar no banheiro, por exemplo) naturais, como parte da curiosidade própria da infância.