segunda-feira, fevereiro 05, 2007

O Corpo, a Persona e a Imagem Corporal do homem contemporâneo
“Só aquilo que somos tem o poder de curar-nos” (C.G. Jung)
O Contexto Cultural e suas consequências imediatas:
A Revolução Industrial é a conjuntura histórica que assinala a profunda modificação da relação do homem com seu próprio corpo. O progresso tecnológico e a expansão do capitalismo exigiram uma disciplina corporal e uma repressão da espontaneidade corporal, uma vez que o homem tornou-se a própria ferramenta de produção. Além disso, o homem começou a trabalhar cada vez mais, sacrificando seu corpo na busca de um conforto dado pela aquisição de bens de consumo. Trata-se de um paradoxo: para que o nosso corpo viva de um modo confortável e prazeroso é preciso maltratá-lo.
“Viver bem” passou a significar a “deglutição” de mercadorias e do padrão estético/comportamental impostos pela sociedade dominante e pelo mercado. Conseqüentemente, o ser humano-desejante reduziu-se a um mero consumidor do mercado, coisificando não só a relação com seu corpo, como também com o mundo à sua volta.
A coisificação do corpo é claramente observada no âmbito da sexualidade. O corpo é tratado como objeto de desejo para outros: todos os sonhos, desejos e histórias pessoais, as relações pessoais e sociais e outros aspectos da vida humana que se tornam concretos no corpo da pessoa e fazem dela um ser único no mundo desaparecem e só sobra um corpo a ser consumido na fantasia de alguém. Torna-se inconcebível a relação sujeito-sujeito.
O valor do corpo na cultura capitalista é dado pela sua eficiência como peça na produção ou como consumidor ou objeto do desejo sexual, impossibilitando o sujeito de constituir-se como tal e de relacionar-se com o outro subjetivamente.
A cultura e a psicologia
Podemos constatar que o indivíduo do século XX vive num estado de insatisfação crescente com sua imagem corporal. O corpo que vê não corresponde àquela imagem cultuada nos meios de comunicação_ a única que pode ser desejada e consumida. Ao se deparar com o espelho, o indivíduo vê uma imagem distorcida, não reconhece o próprio corpo.
Paralelo a isso observamos outro conflito: do indivíduo com sua persona. Segundo C.G.Jung, a persona é a máscara ou fachada aparente do indivíduo exibida de maneira a facilitar a comunicação com o seu mundo externo, com a sociedade onde vive e de acordo com os papéis dele exigidos. É o arquétipo de conformidade que protege ego dos conteúdos inaceitáveis à consciência e o adapta à sociedade. E como todo componente psíquico a persona tem sua face negativa: há o perigo do indivíduo identificar-se com o papel por ele desempenhado fazendo distanciando-se de sua própria natureza.
Dada esta breve conceitualização do arquétipo persona, é possível inferir que o indivíduo do século XX está imerso numa relação caótica com a própria persona constituída como mecanismo adaptativo da psique. A “máscara” que adotamos não acompanha o dinamismo das mudanças impostas pela tecnologia e pelos meios de comunicação. A roupa que vestimos, o modo de nos expressarmos (ambos reflexos da persona) devem estar em constante transformação de acordo com a moda e a ideologia vigente. Há uma incompatibilidade entre as demandas de sobrevivência: o padrão estético imposto pelos meios de comunicação nem sempre corresponde àquele exigido pelo mercado de trabalho, como também pode estar em desacordo com as condições ambientais e históricas no qual se insere o indivíduo. O que vem ocorrendo na época atual se traduz por uma despersonalização constante do indivíduo. O ser humano vem sendo obrigado a trocar de máscaras na mesma rapidez que aparece um produto novo no mercado. Não conseguindo pelo menos se identificar com um papel específico na sociedade, a integração do ego com seu self torna-se uma tarefa dificílima: se o indivíduo não define o seu lugar, o seu estilo, o seu modo de se relacionar com os outros, como então poderá ter consciência daquilo que reprimiu, de sua sombra? Penso que se Jung estivesse vivo, assustar-se-ia com a quase impossibilidade daquilo que ele descreveu como objetivo central de toda personalidade _ o processo de individuação, uma vez que o confronto do ego com sua sombra é um dos primeiros aspectos deste processo.
E qual a relação dessa desordem psíquica com o corpo e com a imagem corporal?
Essa indagação nos remete à polêmica questão da relação mente e corpo.
Jung, tendo como base dados empíricos, propôs uma nova abordagem sobre esta questão. Segundo Jung, os processos do corpo e da mente se desenrolam simultaneamente, de uma forma inexplicável. A nossa forma de pensar não nos permite conceber corpo e psique como sendo uma única coisa. Jung afirma: “penso que existe um princípio particular de sincronicidade ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração.” (Jung, 1989). Dessa forma, não podemos conceber uma causalidade, ou seja, não podemos afirmar que alterações psicológicas causam alterações psíquicas como não podemos afirmar que alterações psíquicas causam perturbações fisiológicas. Como enfatizou Jung, a experiência empírica só nos permite afirmar que ambos processos ocorrem simultaneamente.
Embora não utilizasse técnicas corporais, Jung fez uso da música e da pintura como técnicas terapêuticas. Adotando a postura de Jung do homem como um todo indivisível, cujo corpo e psiquismo são apenas diferentes formas de expressão desta mesma unidade sincrônica, Petho Sándor acrescentou à análise junguiana tradicional o trabalho corporal.
Segundo a perspectiva de Sándor o trabalho corporal busca em reintegrar o paciente consigo mesmo, reconectando o homem com sua natureza mais imediata , o corpo físico, origem do eu corporal.
Com uma concepção de certa forma compatível à de Sándor e tendo como referência Williem Reich, para Alexander Lowen o estudo do homem é unitário: “não é a mente que fica zangada como não é o corpo que agride. É o indivíduo que se expressa a si próprio”(Lowen, 1977). Segundo Lowen o afeto reprimido é expresso fisicamente e sua técnica corporal tem como objetivo a diluição das couraças musculares e de caráter e a consequente liberaçào da energia reprimida (Lowen, 1977)
Tendo em vista tais abordagens, podemos concordar com a afirmativa de Jung de que nossa inteligência não nos permite admitir corpo e psique como um processo único que é o homem. No entanto, a constatação de que alterações psíquicas refletem em alterações corporais e concomitantemente alterações corporais vêm acompanhadas de alteraçoes psíquicas nos permite teorizar e trabalhar terapeuticamente a fim de possibilitar a totalidade do ser humano.
Retomando a problemática proposta, vemos que o homem do século XX está perdido quanto à sua persona. O arquétipo da persona, diante do contexto cultural que nos inserimos, não está podendo exercer sua função adaptativa. O corpo, representante sincronístico da persona está desamparado. A pessoa se preocupa em “cuidar” do corpo, mas este cuidado não significa uma consciência do corpo. O corpo deve estar pronto para o outro, e assim como a persona, submetido à desenfreada mutação da indústria cultural. E para agravar, o homem comtemporâneo pensa de forma cartesiana: concebe o corpo como suporte da mente, sendo a mente valorizada como o lugar da razão e o corpo relegado a segundo plano. Quanto à imagem corporal, por não ter consciência de seu corpo, o homem só pode conceber um “retrato mental” distorcido de si mesmo. Assim, a pessoa vive um conflito incessante entre a imagem ideal e a realidade, gerando simultaneamente um distanciamento crescente da consciência corporal e um adoecimento psíquico.
Da mesma forma que não podemos conceber uma causalidade na relação mente -corpo, não podemos traçar um sentido único para a dinâmica descrita acima. A relação entre persona, corpo e retrato corporal está mais caracterizada como uma relação sistêmica, onde cada aspecto é influenciado pelo outro, em todas as direções e em todos os sentidos, tendo como resultante o indivíduo integral.
Diante desta breve exposição, e tendo como respaldo concepção holística do ser humano fornecida pelos autores citados acima, seria imprudente negar a necessidade de incluir o corpo no contexto do atendimento psicoterápico. Não basta sabermos que corpo e mente fazem parte de uma mesma unidade. É nosso dever promover e buscar essa integração, para nós mesmos e para os outros. O corpo é parte inalienável do processo de individuação, que segundo a psicologia analítica é o destino de todo ser humano, tendo ele consciência ou não.
Referências Bibliográficas:
Jung, C. G., Fundamentos de Psicologia Analítica, Ed. Vozes, 5a. Edição, Petrópolis,
1989.
Lowen, A. O corpo em terapia: a abordagem bioenergética, Sào Paulo, Summus, 1977
artigo on-line: “Corpo Capitalismo e Cristianismo”, Jung Mo Sung
“Só aquilo que somos tem o poder de curar-nos” (C.G. Jung)
O Contexto Cultural e suas consequências imediatas:
A Revolução Industrial é a conjuntura histórica que assinala a profunda modificação da relação do homem com seu próprio corpo. O progresso tecnológico e a expansão do capitalismo exigiram uma disciplina corporal e uma repressão da espontaneidade corporal, uma vez que o homem tornou-se a própria ferramenta de produção. Além disso, o homem começou a trabalhar cada vez mais, sacrificando seu corpo na busca de um conforto dado pela aquisição de bens de consumo. Trata-se de um paradoxo: para que o nosso corpo viva de um modo confortável e prazeroso é preciso maltratá-lo.
“Viver bem” passou a significar a “deglutição” de mercadorias e do padrão estético/comportamental impostos pela sociedade dominante e pelo mercado. Conseqüentemente, o ser humano-desejante reduziu-se a um mero consumidor do mercado, coisificando não só a relação com seu corpo, como também com o mundo à sua volta.
A coisificação do corpo é claramente observada no âmbito da sexualidade. O corpo é tratado como objeto de desejo para outros: todos os sonhos, desejos e histórias pessoais, as relações pessoais e sociais e outros aspectos da vida humana que se tornam concretos no corpo da pessoa e fazem dela um ser único no mundo desaparecem e só sobra um corpo a ser consumido na fantasia de alguém. Torna-se inconcebível a relação sujeito-sujeito.
O valor do corpo na cultura capitalista é dado pela sua eficiência como peça na produção ou como consumidor ou objeto do desejo sexual, impossibilitando o sujeito de constituir-se como tal e de relacionar-se com o outro subjetivamente.
A cultura e a psicologia
Podemos constatar que o indivíduo do século XX vive num estado de insatisfação crescente com sua imagem corporal. O corpo que vê não corresponde àquela imagem cultuada nos meios de comunicação_ a única que pode ser desejada e consumida. Ao se deparar com o espelho, o indivíduo vê uma imagem distorcida, não reconhece o próprio corpo.
Paralelo a isso observamos outro conflito: do indivíduo com sua persona. Segundo C.G.Jung, a persona é a máscara ou fachada aparente do indivíduo exibida de maneira a facilitar a comunicação com o seu mundo externo, com a sociedade onde vive e de acordo com os papéis dele exigidos. É o arquétipo de conformidade que protege ego dos conteúdos inaceitáveis à consciência e o adapta à sociedade. E como todo componente psíquico a persona tem sua face negativa: há o perigo do indivíduo identificar-se com o papel por ele desempenhado fazendo distanciando-se de sua própria natureza.
Dada esta breve conceitualização do arquétipo persona, é possível inferir que o indivíduo do século XX está imerso numa relação caótica com a própria persona constituída como mecanismo adaptativo da psique. A “máscara” que adotamos não acompanha o dinamismo das mudanças impostas pela tecnologia e pelos meios de comunicação. A roupa que vestimos, o modo de nos expressarmos (ambos reflexos da persona) devem estar em constante transformação de acordo com a moda e a ideologia vigente. Há uma incompatibilidade entre as demandas de sobrevivência: o padrão estético imposto pelos meios de comunicação nem sempre corresponde àquele exigido pelo mercado de trabalho, como também pode estar em desacordo com as condições ambientais e históricas no qual se insere o indivíduo. O que vem ocorrendo na época atual se traduz por uma despersonalização constante do indivíduo. O ser humano vem sendo obrigado a trocar de máscaras na mesma rapidez que aparece um produto novo no mercado. Não conseguindo pelo menos se identificar com um papel específico na sociedade, a integração do ego com seu self torna-se uma tarefa dificílima: se o indivíduo não define o seu lugar, o seu estilo, o seu modo de se relacionar com os outros, como então poderá ter consciência daquilo que reprimiu, de sua sombra? Penso que se Jung estivesse vivo, assustar-se-ia com a quase impossibilidade daquilo que ele descreveu como objetivo central de toda personalidade _ o processo de individuação, uma vez que o confronto do ego com sua sombra é um dos primeiros aspectos deste processo.
E qual a relação dessa desordem psíquica com o corpo e com a imagem corporal?
Essa indagação nos remete à polêmica questão da relação mente e corpo.
Jung, tendo como base dados empíricos, propôs uma nova abordagem sobre esta questão. Segundo Jung, os processos do corpo e da mente se desenrolam simultaneamente, de uma forma inexplicável. A nossa forma de pensar não nos permite conceber corpo e psique como sendo uma única coisa. Jung afirma: “penso que existe um princípio particular de sincronicidade ativa no mundo, fazendo com que fatos de certa maneira aconteçam juntos como se fossem um só, apesar de não captarmos essa integração.” (Jung, 1989). Dessa forma, não podemos conceber uma causalidade, ou seja, não podemos afirmar que alterações psicológicas causam alterações psíquicas como não podemos afirmar que alterações psíquicas causam perturbações fisiológicas. Como enfatizou Jung, a experiência empírica só nos permite afirmar que ambos processos ocorrem simultaneamente.
Embora não utilizasse técnicas corporais, Jung fez uso da música e da pintura como técnicas terapêuticas. Adotando a postura de Jung do homem como um todo indivisível, cujo corpo e psiquismo são apenas diferentes formas de expressão desta mesma unidade sincrônica, Petho Sándor acrescentou à análise junguiana tradicional o trabalho corporal.
Segundo a perspectiva de Sándor o trabalho corporal busca em reintegrar o paciente consigo mesmo, reconectando o homem com sua natureza mais imediata , o corpo físico, origem do eu corporal.
Com uma concepção de certa forma compatível à de Sándor e tendo como referência Williem Reich, para Alexander Lowen o estudo do homem é unitário: “não é a mente que fica zangada como não é o corpo que agride. É o indivíduo que se expressa a si próprio”(Lowen, 1977). Segundo Lowen o afeto reprimido é expresso fisicamente e sua técnica corporal tem como objetivo a diluição das couraças musculares e de caráter e a consequente liberaçào da energia reprimida (Lowen, 1977)
Tendo em vista tais abordagens, podemos concordar com a afirmativa de Jung de que nossa inteligência não nos permite admitir corpo e psique como um processo único que é o homem. No entanto, a constatação de que alterações psíquicas refletem em alterações corporais e concomitantemente alterações corporais vêm acompanhadas de alteraçoes psíquicas nos permite teorizar e trabalhar terapeuticamente a fim de possibilitar a totalidade do ser humano.
Retomando a problemática proposta, vemos que o homem do século XX está perdido quanto à sua persona. O arquétipo da persona, diante do contexto cultural que nos inserimos, não está podendo exercer sua função adaptativa. O corpo, representante sincronístico da persona está desamparado. A pessoa se preocupa em “cuidar” do corpo, mas este cuidado não significa uma consciência do corpo. O corpo deve estar pronto para o outro, e assim como a persona, submetido à desenfreada mutação da indústria cultural. E para agravar, o homem comtemporâneo pensa de forma cartesiana: concebe o corpo como suporte da mente, sendo a mente valorizada como o lugar da razão e o corpo relegado a segundo plano. Quanto à imagem corporal, por não ter consciência de seu corpo, o homem só pode conceber um “retrato mental” distorcido de si mesmo. Assim, a pessoa vive um conflito incessante entre a imagem ideal e a realidade, gerando simultaneamente um distanciamento crescente da consciência corporal e um adoecimento psíquico.
Da mesma forma que não podemos conceber uma causalidade na relação mente -corpo, não podemos traçar um sentido único para a dinâmica descrita acima. A relação entre persona, corpo e retrato corporal está mais caracterizada como uma relação sistêmica, onde cada aspecto é influenciado pelo outro, em todas as direções e em todos os sentidos, tendo como resultante o indivíduo integral.
Diante desta breve exposição, e tendo como respaldo concepção holística do ser humano fornecida pelos autores citados acima, seria imprudente negar a necessidade de incluir o corpo no contexto do atendimento psicoterápico. Não basta sabermos que corpo e mente fazem parte de uma mesma unidade. É nosso dever promover e buscar essa integração, para nós mesmos e para os outros. O corpo é parte inalienável do processo de individuação, que segundo a psicologia analítica é o destino de todo ser humano, tendo ele consciência ou não.
Referências Bibliográficas:
Jung, C. G., Fundamentos de Psicologia Analítica, Ed. Vozes, 5a. Edição, Petrópolis,
1989.
Lowen, A. O corpo em terapia: a abordagem bioenergética, Sào Paulo, Summus, 1977
artigo on-line: “Corpo Capitalismo e Cristianismo”, Jung Mo Sung