sexta-feira, julho 22, 2005

 

O intelectual segundo Jean Paul Sartre

Em 1972, Sartre publicou “Em Defesa dos Intelectuais”, ensaio composto de três conferências apresentadas pelo autor no Japão. Nesta obra, uma das últimas publicações de Sartre podemos não só ter acesso ao que Sartre definiu como intelectual e seu papel na sociedade, como também, implicitamente, aos temas que são os pilares de seu existencialismo: a escolha, a liberdade e angústia..
O intelectual é produto da sociedade burguesa. Nasce nela como homem do saber prático, como técnico do saber. E como técnico do saber é levado pela classe dominante a pensar na universalidade das questões humanas, a usar seu saber universal e científico com fim de proporcionar o bem estar entre os homens, descobrindo meios para que isso ocorra.
Porém, o técnico do saber está inserido numa particularidade: a burguesia como classe dominante. O homem burguês se coloca como homem universal, como fim último da humanidade, negligenciando o proletariado. Tendo conhecimento do universal, o técnico do saber reconhece no universal burguês a defesa apenas de seus próprios interesses, ou seja, de uma particularidade que só se torna universal como ideologia. A partir da percepção desta contradição, o homem do saber técnico entra em conflito: detém o saber universal, mas está inserida numa realidade particular, a sociedade burguesa, estando consciente de que serve a uma ideologia que oprime, oferecendo seu saber universal de forma excludente e particularizante.
Ao técnico do saber que ao se dar conta desta contradição, mas ao contrário de nela se acomodar, vivencia-a de forma angustiante, buscando se desvencilhar das amarras de sua própria educação burguesa, através de um incessante questionamento de si mesmo e da ideologia que o formou, Sartre chamou de intelectual. Todo técnico do saber é potencialmente intelectual, porém continuará ser apenas técnico do saber ao aceitar a ideologia dominante, aplicando o universal no particular e renunciando à atitude contestadora.Como afirma Sartre: “O intelectual é, portanto, um técnico do universal que se apercebe de que, em se próprio domínio, a universalidade ainda não está pronta, está perpetuamente a fazer “
Há também o falso intelectual: aquele que aparenta ser um questionador da ideologia burguesa, mas na verdade reafirma e a fortalece. Fazem uso de argumentos reformistas que alienam as massas, dificultando e condenando um levante revolucionário. O intelectual é tentado a adotar o pensamento reformista do falso intelectual e com isso cessar sua infinita angústia de viver na contradição. A fim de refutar estas posturas de reforma, o intelectual assume atitudes radicais, como o apoio à manifestações violentas dos oprimidos, por exemplo na guerra da Argélia..
No entanto, o intelectual não pode deixar de ser um técnico do saber prático, um pequeno burguês. Ele não nasceu como oprimido e não se insere na sua particularidade. O intelectual trava uma constante luta com o pensamento burguês incutido nele e, conhecendo sua particularidade, a ideologia burguesa, e ao mesmo tempo a universalidade, pois é um técnico do saber, ao questionar-se, estará questionando toda a ideologia burguesa em busca da universalidade. Como foi dito, a universalidade está a fazer, sendo o intelectual peça-chave neste processo, ao desmascarar a falsa a universalidade burguesa que constata em si a partir de sua existência contraditória, o que o torna, nas palavras de Sartre, monstro.
Desta forma, o intelectual, ao tornar-se consciente que a universalidade ainda não existe, e sim particularismos da ideologia dominante que tenta, através da ideologia, ser universal, o intelectual conscientiza-se que o homem não existe, ele também está a fazer. Tendo como fim uma sociedade de homens livres e assim uma sociedade que o sustente, o intelectual luta contra a alienação e a submissão imposta pela ideologia que mascara a luta de classes, reconhecendo que este fim só poderá ser realizado a partir da ação das classes exploradas.
Neste ponto do ensaio, Sartre de forma singela deixa transparecer a concepção de homem segundo o existencialismo, permitindo-nos remeter à suas obras anteriores e reconhecer no intelectual de Sartre o homem que só se realiza na liberdade. A liberdade, a angústia, o compromisso são questões que estiveram presentes em todas as obras de Sartre, tanto as obras filosóficas como as literárias. No ensaio “Em defesa dos intelectuais”, estes conceitos estão nas entrelinhas: o intelectual de Sartre não tem como fugir da angústia e da liberdade (em conseqüência, da responsabilidade e do compromisso). É só a partir da vivência da angústia que o técnico do saber se torna um intelectual: a angústia de saber sobre o universal e estar colocando-o a serviço do particularismo burguês, ou ainda, a angústia de decidir entre continuar ser um bom burguês ou se tornar um monstro, sem classe social que o acolha. A angústia significa a percepção de que somos livres e que não temos escolha, senão o ato de escolher sempre. O intelectual só tem essa idéia de liberdade porque conhece a universalidade (embora ela esteja a fazer), tornando-se consciente que a classe dominante ao conceber o homem burguês como universal está negando a liberdade. Pois, segundo Sartre, a condição de liberdade só existe quando os outros também são livres. Enquanto houver opressão, não há liberdade: a burguesia se estrutura numa falsa liberdade, numa ideologia, pois nega o homem universal – o homem burguês só é livre enquanto homem burguês. Assim, o intelectual, ao perceber que o homem só pode existir na liberdade mas que esta liberdade não existe de fato, conclui que o homem não existe. E ainda, que a realização de si como homem, implica no empreendimento de uma sociedade que sustente o homem, enquanto homem-livre. No ensaio, O Existencialismo é um humanismo, Sartre nos diz que ao escolher um projeto de homem, estamos escolhendo todos os homens. O intelectual não tem como fugir desta escolha, a não ser que negue sua própria existência, renunciando ao homem-livre e tornando-se um homem de má-fé, um falso intelectual.
A partir do que foi dito no parágrafo acima seria possível afirmar que o intelectual de Sartre é o próprio homem existencialista de Sartre? Ou seja, o papel reservado ao intelectual é aquele que o autor definiu como sendo a empreitada, o sentido da existência do homem tal como foi definido em “O Existencialismo é um Humanismo?” O homem só pode perceber-se como o por vir do homem, como o ser condenado a liberdade, enquanto intelectual? A essas questões o que podemos seguramente afirmar é que o intelectual é o homem existencialista por excelência, aquele que se angustia ao perceber que o destino do “homem é ser livre”, que deve lutar contra todos os condicionamentos burgueses que lhe foram imputados para poder existir como homem e que têm a consciência de que ao escolher está escolhendo a humanidade inteira: sabe de sua responsabilidade para a modificação da sociedade. No entanto, isto não nos garante que Sartre afirmou que o intelectual seja o único homem capaz de viver a angústia e se dar conta que a única verdade sobre o homem a priori é o fato de ser livre. Levando-se em conta que o autor diz que o homem é aquilo que ele faz (só depois de sua ação podemos julgá-lo), é notória as manifestações das massas e sua luta pelo fim da exploração. Por esta ótica, os oprimidos lutam pela a liberdade: a idéia de liberdade, mesmo que seja outro tipo de liberdade, existe. Os desfavorecidos poderiam se acomodar e render-se a ideologia dominante, contentar-se com reformas, mas em vez disso escolheram a liberdade. Eles podem não refletir metafisicamente sobre o que isto significa como faz o intelectual, mas agem como homens-livres, como o homem que escolheram ser.
Jean Paul Sartre foi intelectual. O intelectual tal como ele definiu no ensaio “Em Defesa dos. Intelectuais. Sua vida é o exemplo do intelectual engajado,talvez o mais popular do século XX, preocupado com as questões sociais e participador ativo dos conflitos sócio-políticos de seu tempo. Sartre procurou se desvencilhar de qualquer ideologia, mesmo as de esquerda. A liberdade dos povos era seu fim e para isso lutou como escritor e militante durante toda sua vida.
Nas conferências reunidas e intitulada “Em Defesa dos Intelectuais”, encontramos tanto sua filosofia quanto sua vida: através desta obra, ele nos oferece a compreensão de porque se tornou intelectual e por que não pôde jamais renunciar a liberdade.

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